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E de um ato de revolta nasce uma cultura revolucionária: o Vogue

Ísis Vergílio

14/11/2017 11h27

Jhonatas Leite a.k.a Fênix Negra

Foi nos EUA dos anos 60 que tudo começou. Na época, o termo LGBT nem existia e esse universo diverso e infinito de culturas baseadas em identidade sexual e de gênero estava restrito à cena underground. Dentro dele, claro, haviam suas especificidades e, por isso, a drag queen Crystal Labeija passou a articular a primeira comunidade preta e latina pensada, direcionada e fomentada por esse público.

Há 51 anos, Labeija fundou a primeira “House”, espécie de “família” junto a outras queens, a “House of Labeija”. Dali nasceram as Balls, os bailes com competições, apresentações e homenagens a essa parcela da comunidade que ressignificou e se reinventou a partir de suas necessidades. Toda essa introdução vale para contar que o VOGUE, apesar de estar automaticamente vinculado à cantora Madonna, é muito mais que uma maneira de dançar! É uma cultura que tem o acolhimento como a base de sua filosofia de vida.

Para mergulhar nesse assunto, fui atrás de um dos principais pesquisadores sobre a comunidade no Brasil: Félix Pimenta, que está há 10 anos imerso no assunto e é pai de uma casa mainstream no Brasil, a House of Zion. Félix participou neste ano de um dos principais eventos BallRoom de Nova York e neste papo bem cremoso conversamos sobre como tudo começou e como a cultura se manteve viva ao longo dos anos. Vamos?

Performance da House of Zion

(Ah, e antes, para lacrar, compartilho com vocês também o meu encontro com uma lenda viva do Voguing, Jose Gutierrez, ou melhor, Jose Xtravaganza. Foi ele quem coreografou, dançou e apresentou Madonna à cultura BallRoom na turnê Blond Ambition da Madonna em 1990!)

Blog da Isis: Félix, o que é a comunidade BallRoom?

Félix Pimenta: A comunidade DragBall ou Ball Room é a comunidade LGBT preta e latina pensada, direcionada e fomentada por esse público. A atual estrutura foi iniciada nos anos 60 por Crystal Labeija, que fundou a primeira House e que junto a outras Queens, iniciaram as Balls que são os bailes onde são organizadas as competições divididas em várias categorias apresentações e inúmeras homenagens. Fora as balls existem outras atividades, como a Black Pride LGBT – Parada Preta LGBT – que acontece há 20 anos em Nova York e também a House Lives Matter, que é um encontro das houses e pessoas que fazem parte da comunidade e que discutem a importância das vidas que fazem parte dela. Há  homenagens e rodas de conversa sobre temas específicos da comunidade.

Felix Pimenta (com o microfone) pai da House of Zion (Chapter Brazil)

B.I: E as houses?

F: As houses são as famílias, se fosse pra traduzir em outros movimentos, seria por exemplo as crews de Hip Hop, com um conceito mais amplo e em outro contexto. Cada house tem seu pai e sua mãe, hoje algumas casas já tem avôs e avós e a função deles é cuidar da casa, de controlar a casa e de convidar as pessoas para integrar a família, cuidar dos filhos, ensinar e entender o que é essa hierarquia, a importância da comunidade, de realizar ações e etc. Sendo assim, cada house tem um direcionamento e uma identidade própria.

As casas vem do conceito das houses de moda, tipo House of Saint Laurent, House of Chanel. É uma referência aos concursos de moda.

B.I: Quando começaram, já existia o conceito de família e acolhimento nas houses?

F: Sim, esse conceito começa mesmo nos anos 60 com House Of Labeija. A grande maioria das pessoas LGBT’s vivia em condições de precariedade, elas eram expulsas de casa, não tinha oportunidades e direitos. Muitas delas em situação de rua, prostituição, a saída era trazer para o conceito de família, então muitas dessas pessoas se uniram, conviviam diariamente e foram morar juntas. O conceito de ‘família’ vem de você organizar e chamar pessoas que estavam conectadas para cuidar e aproximar…acolhimento!

B.I: E como era antes da House of Labeija?

F: As pessoas pretas e latinas já participavam dos concursos de Drag, mas sua participação era limitada e o sucesso, praticamente zero. O conceito de beleza era eurocêntrico, logo, não viam o porquê de uma drag preta vencer nos concursos. LaBeija, em uma fala de revolta após uma competição, revelou esse descontentamento com a invisibilidade das pessoas pretas e latinas e junto a outras Queens, iniciou as Balls direcionadas a esse público no Harlem. Há  um registro no filme Queens, de 1967, que mostra essa cena. Ela, Drag Preta, não aceitou o resultado, questionou e saiu durante o concurso.

B.I: E quando começa a categoria VOGUE nos concursos?

Paris is Burning foi gravado nos anos 80, porém a comunidade já existia e muita coisa já havia rolado, as categorias foram surgindo, inclusive a categoria Vogue.

 

B.I: Quando você começou a se interessar pela cultura do Voguing?

F: Comecei em 2006, em pesquisas pela internet sobre danças urbanas. Depois fiz aulas com professores nacionais e internacionais. Ao longo do processo, descobrimos pessoas dançando Vogue em Goiânia desde os anos 90. Elas se baseavam nos vídeos da Madonna ou de poucos outros vídeos que tinham acesso na época, o que possibilitou que criassem o próprio repertório. É muito legal ver que mesmo com pouca referência montavam as próprias coreografias, fora da comunidade Ball mas direcionado ao Voguing.

B.I: E o Voguing no Brasil?

F: Aqui temos as Kiki Houses, que são as casas pequenas, que não são internacionais e vários capítulos de Houses Mainstream. Eu sou pai da House of Zion charpter Brasil, junto com Eduardo Kon Zion, mãe da House. Nossa casa foi fundada por Pony Zion de Nova York. Para ser uma dessas, a casa deve ter sido criada por um ícone (ou Legendary) e pra você receber esse título tem que ter pelo menos uns 10 anos de contribuição para comunidade. Já as Kiki Houses não são criadas por um ícone.

***Charpter: seriam pessoas que representam a casa mainstream em outros países a convite do pai ou da mãe da casa de origem, como no caso do Félix que representa a House of Zion no Brasil

B.I: Eu gosto do formato que a comunidade/cena se construiu porque obriga, direta e indiretamente, a valorizar e reconhecer quem veio antes, não apagar a produção intelectual de ninguém.

F: Exatamente. E isso acontece até com as assinaturas de movimentos do Vogue. Você cria uma pose, por exemplo duckwalk do Willy Ninja: é um movimento assinado por ele, esse movimento é deles, é da House of Ninja!  Outros movimentos foram pensados e pessoas ou outras casas recebem os créditos pela criação. É o reconhecimento.

Isis (sim, eu!) e minha irmã Natasha Vergilio na pista! Lacramos ou não?

B.I: Qual a importância das Balls nesses processos?

F: O voguing, assim como as Balls, vai para lugares onde precisa. As pessoas se encantam pelo voguing ou pelas comunidades principalmente pela questão de gênero e sexualidade. A comunidade abre espaço para você se sentir incrível e discutir sobre quaisquer assunto. Neste entendimento de família, ajudamos no dia-a-dia as pessoas a lidarem com problemas de autoestima, entendimento de gênero, etc. Discutimos sobre essas questões todos os dias, nos grupos há situações reais de violência, pessoas que são agredidas e já sofreram todos os tipos de violência e desabafam lá.

B.I: Curiosamente, a comunidade nasce a partir de uma fala de revolta.

F: Vejo pessoas falando “ah, vamos vencer com amor”, não tem como simplesmente vencer com amor. Você não vai rebater a bala com amor, ou vencer com piadas. É a hora que a gente tem que ser radical , se revoltar e mostrar que o sistema tá errado. Durante a epidemia da AIDS e ainda hoje, a comunidade é diretamente atingida e sofreu várias perdas. Ainda que seja um tema muito complicado e cheio de tabus, a cultura BallRoom foi muito importante no suporte e em criar espaços com direcionamento para a luta contra os estigmas, pela prevenção e menos preconceito com pessoas soropositivas. A Látex Ball, uma das mais importantes Ball’s do mundo, surgiu em parceria da GMHC (Gay Men’s Health Crisis) e a comunidade para levar mais informação e fortalecer a cena. E, ao longo do tempo, várias agências direcionadas a saúde da população preta e latina LGBT começaram a colaborar com inúmeras ações na comunidade. Exemplo, a H.E.A.T (Health & Education Alternatives for Teens).

Curiosidade: Félix lançou a música “TODAS AS CREMOSAS” em parceria com Nelson D, só acho que vocês deveriam ouvir, está bem bapho!!!

Sobre a Autora

Olá, mores! Eu sou a Ísis Carolina, produtora cultural, mulher negra, mãe solo da cremosa Estela, sou filha de OXUM, leonina, feminista interseccional. Trabalho atualmente com a atriz Ana Flávia Cavalcanti, com bailarina Natasha Vergílio e faço assessoria para a queridíssima Djamila Ribeiro. Além disso, sou membro do Coletivo Sistema Negro e Coletivo AMEM e fundadora da plataforma AFROCREATORS. E agora, como vocês podem ver, integro o time bapho de blogueirxs do UOL. BUM!

Sobre o Blog

O Blog da ÍSIS é sobre vivências, experiências, moda, música, cinema, comportamento, ativismo e todas as pautas que estou mergulhada diariamente. Vem mergulhar comigo, mores!

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